Ajustamento psicológico e desenvolvimento da linguagem de crianças em acolhimento residencial

Joana Campos Pereira, Maria Acciaiuoli Barbosa-Ducharne, Pedro Dias

Resumo


Em Portugal, 98% das crianças com menos de três anos de idade retiradas das suas famílias de nascimento vivem em casas de Acolhimento Residencial (AR). A colocação precoce de crianças em AR pode afetar drasticamente seu desenvolvimento. Este estudo tem como objetivo: identificar a frequência de Problemas de Internalização, Externalização e Total, bem como o número médio de palavras utilizadas por crianças em AR; comparar a frequência dos problemas e o vocabulário destas crianças com a amostra normativa da população portuguesa que permitiu a validação e a aferição da Bateria ASEBA em Portugal; analisar as diferenças entre as crianças em AR de acordo com o sexo, integração pré-escolar, presença de irmãos na mesma casa de AR e o tamanho da própria casa de AR e explorar as correlações entre as medidas de ajustamento psicológico e o desenvolvimento da linguagem e as variáveis sociodemográficas. Participaram neste estudo cento e dezasseis crianças portuguesas (56,9% do sexo feminino) com idades compreendidas entre os 0 e os 71 meses (menores de 6 anos). Os dados foram recolhidos através da bateria ASEBA. Os resultados mostraram que estas crianças apresentaram um maior nível de vulnerabilidade em relação ao ajustamento psicológico e ao desenvolvimento da linguagem, quando comparadas com as crianças que vivem com as suas famílias, principalmente aquelas separadas dos seus irmãos e que vivem num contexto fechado que não proporcione experiências de contacto com outras crianças externas ao AR. Estes resultados reforçam a importância de se privilegiar a medida do acolhimento familiar (ao invés do AR), particularmente nesta faixa etária, para que as crianças tenham oportunidade de se desenvolver num contexto familiar normativo.


Palavras-chave


Ajustamento psicológico, Desenvolvimento da linguagem, Bateria ASEBA, Crianças, Acolhimento residencial.

Texto Completo:

PDF

Referências


Achenbach, T. M., & Rescorla, L. A. (2000). Manual for ASEBA preschool forms & profiles. Burlington: University of Vermont, Research Center for Children, Youth & Families.

Achenbach, T., Rescorla, L., Dias, P., Ramalho, V., Sousa Lima, V., Machado, B., & Gonçalves, M. (2014). Manual do Sistema de Avaliação Empiricamente Validado (ASEBA) para o Período Pré-Escolar e Escolar. Braga: Psiquilibrios Edições.

Alink, L. R., Mesman, J., van Zeijl, J., Stolk, M. N., Juffer, F., Koot, H. M., . . . van Ijzendoorn, M. H. (2006). The early childhood aggression curve: Development of physical aggression in 10- to 50-month-old children. Child Development, 77, 954-966. Retrieved from https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2006.00912.x

Álvares, A., & Lobato, G. (2013). Um estudo exploratório da incidência de sintomas depressivos em crianças e adolescentes em acolhimento residencial. Temas em Psicologia, 21, 151-164. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/pdf/tp/v21n1/v21n1a11.pdf

Beckett, C., Bredenkamp, D., Castle, J., Groothues, C., O’Connor, T., Rutter, M., & The English and Romanian Adoptees Study Team. (2002). Behavior problems associated with institutional deprivation: A study of children adopted from Romania. Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics, 23, 297-303.

Borges, L., & Salomão, N. (2003). Aquisição da linguagem: Considerações da perspetiva da interação social. Psicologia, Reflexão e Crítica, 16, 327-336.

Bronfenbrenner, U. (1996). A ecologia do desenvolvimento humano: Experimentos naturais e planejados. Porto Alegre: Artmed.

Cardona, J., Manes, F., Escobar, J., López, J., & Ibáñez, A. (2012). Potential consequences of abandonment in preschool-age: Neuropsychological findings in institutionalized children. Behavioural Neurology, 25, 291-301. Retrieved from https://doi.org/10.3233/BEN-2012-110205

Cavalcante, L., Magalhães, C., & Pontes, F. (2007). Institucionalização precoce e prolongada de crianças: Discutindo aspetos decisivos para o desenvolvimento. Aletheia, 25, 20-34.

Cavalcante, L., Magalhães, C., & Pontes, F. (2009). Processos de saúde e doença entre crianças institucionalizadas: Uma visão ecológica. Ciência & Saúde Coletiva, 14, 615-625.

Delgado, P. (2010). O acolhimento familiar em Portugal: Conceitos, práticas e desafios. Psicologia & Sociedade, 22, 336-344.

Dozier, M., Stovall, K., Albus, K., & Bates, J. (2001). Attachment for infants in foster care: The role of caregiver state mind. Child Development, 72, 1467-1477.

Egger, H. L., & Angold, A. (2006). Common emotional and behavioral disorders in preschool children: Presentation, nosology, and epidemiology. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 47, 313-337. Retrieved from https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.2006.01618.x

IBM Corp. (Released 2014). IBM SPSS Statistics for Windows, Version 22.0. Armonk, NY: IBM Corp.

Instituto da Segurança Social, Instituto Público [ISS, IP]. (2018). CASA 2017: Caracterização Atual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens. Lisboa: ISS, IP.

Johnston, M. (2009). Plasticity in the developing brain: Implications for rehabilitation. Developmental Disabilities Research Reviews, 15, 94-101.

Loman, M., Wiik, K., Frenn, K., Pollak, S., & Gunnar, M. (2009). Post institutionalized children’s development: Growth, cognitive, and language outcomes. Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics, 30, 426-434.

Lordelo, E. (2002). Agora vá com a tia que a mamãe vem mais tarde: Creche como contexto brasileiro de desenvolvimento. In E. R. Lordelo, A. M. A. Carvalho, & S. H. Koller (Orgs.), Infância brasileira e contextos de desenvolvimento (pp. 77-97). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Maclean, K. (2003). The impact of institutionalization on child development. Development and Psychopathology, 15, 853-884. Retrieved from https://doi.org/10.1017/S0954579403000415

Manso, J. (2003). Estudio sobre las repercusiones linguísticas del maltrato y abandono emocional infantil. Revista de Logopedia, Foniatria y Audiologia, 23, 211-222.

Marcovitch, S., Goldberg, S., Gold, A., Washington, J., Wasson, C., Krekewich, K., & Handley-Derry, M. (1997). Determinants of behavioral problems in Romanian children adopted to Ontario. International Journal of Behavioral Development, 20, 17-31.

Misquiatti, A., Nakaguma, P., Brito, M., & Olivati, A. (2015). Desempenho de vocabulário em crianças pré-escolares institucionalizadas. Revista CEFAC, 17, 783-791.

Morais, N., Leitão, H., Koller, S., & Campos, H. (2004). Notas sobre a experiência de vida num internato: Aspetos positivos e negativos para o desenvolvimento dos internos. Psicologia em Estudo, 3, 379-387.

Nascimento, R., & Piassão, C. (2010). Avaliação e estimulação do desenvolvimento neuropsicomotor em lactentes institucionalizados. Revista Neurociências, 18, 469-478.

Nóbrega, J., & Minervino, C. (2011). Análise do nível de desenvolvimento da linguagem em crianças abrigadas. Psicologia Argumento, 29(65), 219-226.

Otieno, P., Nduati, R., Musoke, R., & Wasunna, A. (1999). Growth and development of abandoned babies in institutional care in Nairobi. East African Medical Journal, 76, 430-435.

Rodrigues, S., Barbosa-Ducharne, M., & Del Valle, J. F. (2015). ARQUA-P: Sistema compreensivo de avaliação da qualidade do acolhimento residencial português©. Registo 2650/2015. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura, Inspeção-Geral das Atividades Culturais, Direção de Serviços de Propriedade Intelectual.

Scarr, S., & Eisenberg, M. (1993). Child care research: Issues, perspectives, and results. Annual Review of Psychology, 44, 613-644.

Sheridan, M., Dury, S., McLaughlin, K., & Almas, A. (2010). Early institutionalization: Neurobiological consequences and genetic modifiers. Neuropsychology Review, 20, 414-429.

Sigal, J., Perry, J., Rossignol, M., & Ouimet, M. (2003). Unwanted infants: Psychological and physical consequences of inadequate orphanage care 50 years later. American Journal of Orthopsychiatry, 73, 3-12.

Silva, E., & Aquino, L. (2005). Os abrigos para crianças e adolescentes e o direito à convivência familiar e comunitária. Políticas Sociais: Acompanhamento e Análise, 11, 186-193.

Wakschlag, L. S., Briggs-Gowan, M. J., Carter, A. S., Hill, C., Danis, B., Keenan, K., . . . Leventhal, B. L. (2007). A developmental framework for distinguishing disruptive behavior from normative misbehavior in preschool children. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 48, 976-987. Retrieved from https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.2007.01786.x

Willrich, A., Azevedo, C., & Fernandes, J. (2009). Desenvolvimento motor na infância: Influência dos fatores de risco e programas de intervenção. Revista Neurociências, 17, 51-56.

Zeanah, C., Egger, H., Smyke, A., Nelson, C., Fox, N., Marshall, P., & Guthrie, D. (2009). Institutional rearing and psychiatric disorders in Romanian preschool children. American Journal of Psychiatry, 166, 777-785. Retrieved from https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2009.08091438

Zeanah, H., Nelson, C., Fox, N., Smyke, A., Marshall, P., Parker, S., & Koga, S. (2003). Designing research to study the effects of institutionalization on brain and behavioral development: The Bucharest Early Intervention Project. Development and Psychopathology, 15, 885-907.




DOI: https://doi.org/10.14417/ap.1731

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Nº ERC: 107494 | ISSN (in print): 0870-8231 | ISSN (online): 1646-6020 | Copyright © ISPA - CRL, 2012 | Rua Jardim do Tabaco, 34, 1149-041 Lisboa | NIF: 501313672 | O portal e metadados estão licenciados sob a licença Creative Commons CC BY-NC